Fotojornalismo não, fotosensacionalismo.

Foi há 6 anos que, pela primeira vez, peguei “conscientemente” numa máquina fotográfica. A velhinha Yashica FX-7, então propriedade do meu falecido avô paterno, tinha sido por mim encontrada em cima de uma mesa de sala, para não mais voltar ao dono original. Meses mais tarde, na cama que viria a ser a sua última morada, o mesmo avô repreendeu-me por eu nunca ter demonstrado intenções de devolver o aparelho. No mesmo discurso acrescentou que, na verdade, não fazia mal, que eu poderia tornar-me o seu proprietário oficial. Foi sensivelmente nesta altura que o meu avô soube que não iria ganhar a batalha contra o cancro e que não iria mais ter vontade ou motivos para fotografar. Além desta fatalidade, eu próprio comecei a alinhavar na minha cabeça a ideia de um dia me tornar fotojornalista. E aqui estou eu, 6 anos depois, titular de um documento que comprova isso mesmo.

Não será propriamente interessante falar de como cheguei a merecer este estatuto profissional, nem tão pouco das vantagens que ele me poderá trazer ( a meu ver, a única é o acesso gratuito à maior parte dos museus ). O importante será talvez distinguir entre o conceito de fotojornalismo e a prática dessa mesma actividade. Pois bem, a minha curta experiência e conhecimentos no meio garantem-me que tudo não passa de mais uma grande mentira. Confesso que nunca imaginei que a realidade da ascensão neste meio profissional fosse tão regulamentada por conveniências, favores e gostos pessoais ( geralmente medíocres, na minha opinião ). Ainda só há 3 anos decidi apostar os meus esforços no fotojornalismo e já me sinto ridículo por me saber parte de tristes jogos de poder e influência. Decido agora ser apenas fotógrafo, e deixar as guerras para quem as quiser lutar. Além disso, marketing pessoal nunca foi o meu forte, e muito menos me considero bom actor, o que me impede de participar no teatro do elogio ( ser o que normalmente se designa por “lambe-botas” ). Deus, nome dado ao causador da existência, fez-me saudavelmente orgulhoso. E que felicidade a minha, pois faço parte de uma estável família que me permite aguentar as consequências de tanta saúde.

De todas as formas não me apetece muito explorar esse fenómeno corrosivo tipicamente português que é o feudalismo profissional, antes sim olhar para os seus resultados. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, questiono-me se os srs. editores fotográficos da quase totalidade da nossa imprensa jornalística alguma vez puseram em causa a sua actuação na sociedade como meros divulgadores de sensacionalismo mascarado de fotojornalismo. Claro que o fenómeno se alarga muito além fronteiras e está de tal forma enraizado e generalizado que faz com que o óbvio se torne invisível. Esta é, talvez, a característica social mais marcante que reconheço na raça humana, a de conviver pacificamente com algo que é assustadoramente evidente. Daí a nossa incapacidade em “sentir” os grande flagelos da humanidade, cujos media são parcialmente responsáveis, tanto activa como passivamente. Digo isto porque são os mesmos que mostram e banalizam simultaneamente a sua mensagem, numa atitude obviamente contraditória. Julgo que a linguagem publicitária aplicada ao jornalismo abriu-nos as portas da era da “desinformação”, ou, por outro prisma, da banalização da informação.

O típico fotojornalista dos pobres e das catástrofes, esse, poderá orgulhosamente alegar que o seu trabalho não tem nada de publicitário, mas com um pouco de distância observamos que não é bem assim. A linguagem comum deste tipo de jornalismo, de tão vulgarizada e aceite que está, é facilmente validada e difundida como informação, embora todos saibamos que o seu consumidor final dificilmente irá ficar sensibilizado mais do que alguns segundos para o caso. Este último, não inocente em todo este processo, está simplesmente a adquirir entretenimento mascarado de informação. Há séculos atrás a sociedade romana fazia-o abertamente, com os seus espectáculos de gladiadores. Hoje em dia, ao proibir que a barbárie ocorra no seio das nossas sociedades, estamos tão somente a transferir o palco do estádio para as páginas da nossa imprensa. Falo neste tipo de fotojornalismo apenas por ser, talvez, o caso mais extremo da idiotice editorial que a nossa imprensa transmite. No fundo julgo que o problema se estende por todas as outras áreas, e é por isso que afirmo a minha intenção de me divorciar do chamado fotojornalismo, que para mim não passa “fotosensacionalismo”. Fico com vontade de rir quando percebo que alguns dos supostos grandes nomes que fazem o nosso fotojornalismo, mesmo depois de muitos anos de experiência, teimam em imitar aberta e ridiculamente a inabalável obra do mais mediático dos fotojornalistas, Henry Cartier Bresson... sobre este homem, cujo mérito não ponho minimamente em questão, só poderei dizer que não foi o melhor, foi tão somente o primeiro. A preocupação deveria estar na imitação da atitude livre e questionadora, não tanto no eficaz olhar geométrico.

Para a classe dos editores fotográficos que critiquei, esses, obviamente não se irão rever nas minhas palavras. Apenas lhes posso dizer que é assim que eu vejo as coisas. Bem sei que ir contra a corrente, na maior parte dos casos, significa perder o emprego... pois que o percam, com dignidade. A fotografia é uma arte com um alcance inexplicável, não deveria ser subvertida em função de lógicas primitivas de mercado. Basta abrir algumas publicações onde a fotografia tem algum peso para se adivinhar uma rígida formatação de estilos e linguagens. Há dias, o editor de uma conhecida publicação jornalística nacional respondia às críticas de um leitor de opinião parecida com a minha com o facto de “não poder ignorar as tendências vigentes na imprensa internacional”. Nada mais fácil como dizer que os outros ( os melhores que nós, os estrangeiros ) são iguais. Pois o problema é exactamente esse.

Para quê enaltecer o fotojornalismo ( ou outra coisa qualquer ) se a sua função é, salvo algumas raras excepções, entreter os olhos da sociedade ? Julgo que o mito do fotojornalista acaba para mim de cair por terra. Afinal eu estava enganado, as coisas não eram como eu imaginava. Durante uma fase mais pacífica da minha vida fui levado a crer que existia um compromisso, chamado fotografia documental. Uma das definições mais ignóbeis que ouvi sobre esta disciplina, escrita num semanário de referência português, referia a fotografia documental como sendo a que “fica bem na parede e nas páginas de uma revista”. Tal afirmação não me surpreendeu, assim como não me surpreenderam os desabafos de uma conhecida galerista da minha cidade que afirmava que a vendedora de móveis da loja em frente vendia mais pinturas do que ela, pois no seus stocks existia também um abrangente leque de quadros a condizer com qualquer sofá. Ainda para mais, baratos. Julgo que a analogia é perfeita para o que se passa nos media, que não fazem mais do que oferecer às pessoas exactamente o que elas querem consumir, com todo o conforto. Obviamente que existem saudáveis excepções, das quais poderá vir ainda a brotar a semente que voltaria a unir o jornalismo à fotografia.

A fotografia, como crença e modo de vida, é uma disciplina rigorosa que eu tento assimilar. Só ela me permite suportar a evidência do vazio, ainda que a sua voz ou presença não seja racional. Por isso me demito deste grande banco de imagens chamado fotojornalismo para me dedicar exclusivamente à utópica busca da essência, através da fotografia. O meu suicídio social começa aqui.

Pedro Guimarães

8 de Maio de 2005